quarta-feira, 25 de abril de 2012

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005

ENQUADRAS


Há por aí quem tenha um ideal fixo
Mas às vezes porém nem por isso
Alguns não querem o crucifixo
Outras clamam pelo chouriço

Inunda-se este País sem chama
Em rios e mares de desagrado
Afunda-se o País num mar de lama
Mas eu não drago mas eu não drago.
UM POEMA DE 1976

O País das maravilhas


Ah! este país das maravilhas
Da sopa de favas
Dos guisados de ervilhas
Do pão
Do requeijão
Do branco e do tintol
País das barracas
Das caixas e das baixas
Da tensão
Do colesterol
País adiado sem tempo
País odiado cantado
País louvado
Caído no deixa andar
No não importa no não te rales
Que vive do importar
Dos avales
País sem porta
Das correntes de ar
Dos balões de soro
Dos meninos de coro
Dos professores
Dos Catedráticos
Dos sabedores
Dos doutores
Dos lunáticos
País sem ementa
Sem pão nem mesa
Sem sal nem pimenta
Sem o "dito" à portuguesa
Que a inflação atormenta
País sem amor
Sem flor
Dos castrados e impotentes
Dos males por atalhar
Da dor
Do se calhar
Do talvez do entrementes
País extraviado
Esquecido espezinhado
Do vinho a martelo
Do Whisky marado
País-castelo
Desmoronado
País dormente
Chagado
Envelhecido pelo tempo
Maltratado
Das crianças sem sorriso
Dos velhos sem porvir
Dos campos sem reforma
Da cidade salvação
Do mundo cão
Ah! meu país doente!
ENQUADRAS



Nós temos grandes carolas
Neste nosso querido Portugal
Tiram os crucifixos das escolas
E deixam as iluminações de Natal.

Os crucifixos são de retirar
Diz o governo sem emoções
Mas então e a Páscoa e o folar
Também não têm conotações?

Se tudo ofende a constituição
este governo de Portugal
Tem de retirar as chagas
Da Bandeira Nacional.



... a propósito dum artigo de Constança Cunha e Sá na revista Sábado.

Ano de 2005

O CARRINHO DE CORRIDA

Na minha cidade azul o menino e o carro não são apenas um carro e um menino
poderia ser o carrinho de corridas do menino azul ou o carrinho azul do menino da cidade
mas dentro da cidade dentro do carro dentro do menino há outros meninos que não sendo azuis
são meninos que têm palavras têm sonhos que podem ser azuis

dentro do azul das palavras dos sonhos dos meninos que não têm cor
há uma cidade que não azul mas cinzenta que tolda as palavras e os gestos
e os carrinhos de corrida que são azuis dos meninos que também são azuis
da cidade que é azul morrem nas mãos dos meninos cinzentos
que percorrem as ruas nas escuras noites da minha cidade azul
sem palavras azuis sem sonhos azuis dentro desse carrinho azul de corrida
até ao breu total

A PERGUNTA DO DIA

Até quando a nossa paciência
tolerância ou patetice
ignorância ou ciência
que nós temos por suporte
Dá para aguentar esta socretice
do mistério do freeport?


Janeiro de 2009

MANIFESTO

Este meu poema foi escrito em 2008. Volta agora aqui, porque os ésses estão na moda. Há quem afirme que este assunto tem que ser tratado com pinças. Eu diria que com luvas, de pelica, de cabedal ou pele, porque na nossa pele vamos sentir as outras.


MANIFESTO ANTI-S

Eu não gosto de ésses.Basta de ésses!
Abaixo os ésses, a dinastia dos ésses, a pluralidade dos ésses
dos de sá, que me lembra o pinto e o pinto que me lembra costa
e o mar que me salga, que destila sal, que vai à sala e
por azar também é sa, de sal, de Salazar
e do ar, que nos deu, inquinado ou não, conforme a opinião
ar de mar, de maresia, de opinar, de cortar o pensamento e degredar.
Não gosto de ésses
abaixo a monarquia dos ésses!
Abaixo os reis, abaixo o S de Sebastião, mas abaixo o nosso reizinho, não!
Abaixo o se de bastião, não gosto de bastiões, nem sequer envoltos em nevoeiro
que os ésses podem voltarem em manhãs de escuridão
mas às vezes, porque não, servir um certo abanão
à mesa dos comilões.
Não gosto do S de salmão, mas gosto de salmão, posso tirar-lhe o S e gritar p'rá cozinha:
sai um prato de almão, mas nós não temos almão
temos apenas alminha, tão débil, tão quebradiça
que nem a hóstea da missa, servida em taças de prata
nos equilibra a balança, e o mundo pula e avança como bola colorida
e não nos enche a pança, não nos sara a ferida
aberta por esses ses da nossa peregrinação.
Basta de ésses!
O ésse é de servil!
o ésse é de sorumbático!
o ésse é de salsada!
o ésse é de salafrário!
o ésse não pode morrer solteiro!
Eu não gosto dos ésses, abaixo os ésses de saloíce, do seguidismo, dos salamaleques
mas eu gosto da Ofia Mello Breyner, mas não gosto do Sousa, o Tavares
mas eu gosto da Ofia Loren, do José Aramago, só não gosto dos ésses.
O ésse vem no fim do abecedário, gosta de plurais, eu sou mais singular, sou mais um por todos
mesmo que um Benfica em mó de baixo
não gosto do ésse no todos por um, porque me cheira a todos por um tacho
não gosto do ésse de Sporting
não gosto do ésse da Sportv
não gosto das tv's que nos servem
não gostos dos salários que nos servem.
Abaixo os ésses e os ses!
Não gosto do S no início da palavra, não gosto do S no fim da palavra
Não gosto de Sócrates, o antigo, porque tem dois ésses
não gosto de Sócrates, o moderno, porque não gosto que me socratizem
porque tem dois ésses, porque de só, só gosto do António Nobre.
Abaixo o S
abaixo o so de solidão, de sofismas, de sofrimento
abaixo os ésses de safardanas, de sacripantas, de sidosos
porque o S é de sacana, de senil, é de senhor doutor
porque é também serpenteante, tem curvas, contra-curvas, ravinas
percorre o sul, o sotavento. É o princípio dos sismos, acaba em tempestades
temos que abolir o S do nosso vocabulário, já!
Para que precisamos do S em S. Bento? e a segurança social é melhor com dois ésses?
e a saúde com S?
Não aos S, aos SS, aos sistemas, aos esquemas
aos emblemas.
Abaixo o S! Abaixo o sa, o sal, o sala, o Salazar
Abaixo o só, o sozinho, o sozista, o Sócrates, os socráticos e os socreteiros!
Porque o António era um homem só, porque quem mandava era um homem só, porque isolados éramos um país só, em redoma periclitante.
porque não gosto de gente arrogante, nem de gente mareante, que navega
em naus douradas, enquanto a nossa pesca se afunda.
Basta de ésses.
Fora com os ésses de mentirosos
fora com os ésses de sabichões, de licenciados até ver, de doutores
de contadores de histórias, de aldrabões.
Fora com o sopro dourado dos apitos, com o sopro estrangulado da casa pia.
A verdade não tem ésse! a justiça não tem ésse!
Que os ésses sejam julgados no Rossio.
Fora com os ésses de senadores
abaixo as comissões, as assembleias, os colóquios
abaixo os ilusionistas, os malabaristas
Portugal não tem ésse
o povo não tem ésse
mas Sócrates tem
fora com os pinóquios, já!

PORTUGAL-SUÉCIA

Este nosso futebolzinho
que se torna tão atroz
só pode ter um padrinho:
o "atraso" Carlos Queiró.

EMBAIXADA DOS SABORES

Amadora não é apenas dormitório, pelo contrário é uma cidade com vida, com movimento e com bons restaurantes como prova o restaurante Embaixada dos Sabores. Vale a pena visitar a Amadora e almoçar ou jantar neste restaurante pois tem um ambiente agradável, empregados simpáticos e qualidade no serviço. Amadora no seu melhor. Aqui fica uma pequena homenagem a este espaço:


As meninas

Percorrem a sala vezes sem conta
Em passos de magia, sinuosas gazelas em selva citadina.

Os olhares atentos, os gestos delicados
Os sorrisos fáceis
São os sabores que temperam esta salada
Tão simples, tão colorida.

As mãos frágeis, trazem-me o café
Adoço-o com meio pacote de açúcar
E o mel de um sorriso furtivo.

Hoje, não comi a sobremesa
Essa, fica na ternura de um até amanhã.

UM DIA NA "EMBAIXADA"

Aspiras o ar e o fumo simultaneamente. O cigarro
Nas tuas mãos delicadas
Decresce a cada fumaça.
O fumo, esse, serpenteia por entre
Os teus cabelos
Castanhos dourados, ou não
Não sei.

Mordes o dedo enquanto
O azul dos teus olhos
Percorre o azul dos meus, ou não
Não sei.

O teu sorriso salpica-se a cada palavra
Que pronuncias à tua companheira enquanto
O nevoeiro do fumo envolve cumplicidades,
Ou não
Não sei.

Tento adivinhar pela tua pose, pelos teus gestos
se és mulher do dia
Da noite, da madrugada
Serás ou não,
Não sei.

O cigarro morre no cinzeiro
O fumo dissipa-se e tu
Recostada na cadeira, sorvendo da taça,
Esse champanhe feito sangria
Continuas a ser para mim
Uma interrogação,
Podes ser rio azul e sereno
Ou mar verde e bravio
Ou não,
Não sei.

E partes, deixando
Como entraste, um rasto de interrogação
E eu sentado na mesa no outro canto
Acabando o resto da coca-cola,
Fico sonhando ou não
Não sei!

A PROPÓSITO DA LEI DA MATERNIDADE

"Portugueses
ponham-se de borco
e façam filhos"
diz este governo da treta
que só dá um chouriço
a quem lhe der um porco
e os tugas vão na pêta
engolem a nova lei da maternidade
sem ler nas entrelinhas
a maldade do "mafarrico"
pois este só dá uma chupeta
a quem lhe der uma loja "chicco"


Maio de 2009

QUADRAS SOLTAS

Ser sucateiro não é nada mau
neste cantinho de tanta arara
que o diga Armando Varapau
campeão do salto á vara.

Vamos ao sul, perdemos o norte
contamos o bago que dá as uvas
licenciamos english freeport
e só esperamos pelas luvas.

Não sou da ordem dos arquitectos
mas ao domingo fiz-me engenheiro
desenho casas faço projectos
tudo por pouco dinheiro.

Sexta-feira é um tremoço
aperitivo para as minhas "dentelas"
como escutas ao pequeno almoço
ao jantar como manuelas.

Procuradores, juízes e presidentes
sindicatos, oposições e que mais sei
são petiscos para os meus dentes
mas o que eu quero são casamentos gay.

Padrão, rosa dos ventos infante
há quem diga que sou sinistro
não o sou, nem sequer arrogante
sou simplesmente mau ministro.
Poesia de novembro de 2010

SURREALISMO

Ah Portugal, Portugal
país das maravilhas
do mar e do sol
do cheiro a maresia
dos endémicos
sabedores e doutores
plateia de pindéricos
que falam de crise
dos suprimes
dos sistémicos
água dura
em pedra mole
que nos inunda
e afunda
com palpites e
contágios
que a guita não abunda
na nossa mão
mas na deles não
e falam como entendidos
posam com ar solene
nos nossos "times"
na televisão
falam de governo de salvação
uns sim outros não
querem sufrágios
porque são devotos
aos votos claro
porque os tachos
ai os tachos são tão lindos
os maganões
dão status dão milhões
e o zé preso aos
grilhões
dessa miséria secular
dá-lhes a teta
para mamar
nesta Cornélia em que este país
se transformou
antro de vampiragem
onde uns comem tudo
e os outros pagam
para salvar um país
que é cada vez mais uma miragem.

POESIA

A proposta da nossa tertúlia de poesia para esta quarta-feira era "a idade avançada", como deixei correr o tempo só hoje, uma hora antes peguei no tema. Saiu assim:


Já não tenho idade para mamar
pois a minha idade avançada
leva-me apenas a navegar
nas saudades da minha amada.

Mas senhor
porque me dais tanta dor
ao afundar esta nau
estando eu na amurada?

Eu sei, eu sei
que posso naufragar
mas apesar da idade avançada
tenho vela tenho verga
tenho pau
ainda posso remar.

Mas as crianças senhor
vivem de sonhos e não sonham
aonde vão parar
e sem remos e sem amor
têm um juro que lhes deixamos
e que mais tarde vão pagar.

Já não tenho idade para abocanhar
a doce teta, a maminha
desta "vaca" Pátria minha
que deu de mamar aos glutões.

Ah meu país doente
minha Pátria enamorada
quanto de nós precisas
(aqueles de idade avançada)
para que ergamos o país
levantemos a bandeira
e empunhando a espada
dar em alguns uns safanões.

AMIGOS DA POESIA

O mote da poesia da nossa tertúlia era exactamente o título em epígrafe e meia hora antes da reunião saiu-me assim:

se os ventos vindos do mar
fossem palavras e maresias
ouviriam este sussurrar
dos amigos da poesia

sussurros revoltas e lamentos
do navegar do dia-a-dia
são tempestades são os ventos
dos amigos da poesia

e se tantos neste naufragar
discutem orçamentos economia
neste país prestes a afundar
são tão poucos os amigos da poesia.
TERTÚLIA

Desde 2002 que faço parte duma tertúlia de poesia que se reúne geralmente duas vezes por mês, uma no restaurante "O Fernando" na Amadora, a outra, sempre na última quarta-feira do mês, na Biblioteca Municipal da Amadora. Quase sempre na tertúlia "Sempre acontece poesia" há um tema proposto para a sessão seguinte. Quem tiver inspiração...
MINISTÉRIO


Pessoa a presidente
a 1º ministro talvez Camões
na saúde Miguel Torga
Antero na pasta dos milhões.
António Nobre nos estrangeiros
Jorge de Sena na defesa
de Portugal
Cesário Eugénio e o O'neil
todos na mesma mesa
estoicamente sentados
defendendo o social.
Florbela na educação
na cultura eleita a Sofia
e na assembleia os deputados
todos todos
os amigos da poesia.



POEMA ESQUECIDO

Descobri este poema que ficou esquecido num pequeno caderno, algures numa gaveta. Vem hoje a lume e está actual.


Sei de um país moribundo mergulhado numa Europa
que tarda em fazer marear as pequenas naus
que nela se aventuraram.

Sei de um país inquinado por marés de incompetentes
que corrompem as amuradas de um barco
que zarpa sem destino.

Sei de um país angustiado que pergunta de boca-em-boca
que presente que futuro que destino.

E os ventos que nos fustigam não trazem novas
são rajadas de dúvidas são males e calamidades
que nos fazem vergar o pensamento
quebrar o corpo aniquilar a esperança.

Sei de um povo que já foi país
que foi para além do seu tamanho
ultrapassou oceanos e adamastores
desbravou savanas no fim do mundo
espalhou padrões em terras longínquas.

Sei de um povo que vive esmagado pelo martírio
encurralado nas tramas que os donos deste país
urdem e tecem no silêncio que o amordaça.

Sei de um povo que tarda em se levantar!
AS ARTES DA ESCRITA


Este blogue que hoje se inicia será dedicado às artes da escrita. Terá essencialmente poesia e prosa minha, mas haverá lugar para outros poetas e outros escritores.